quarta-feira, 24 de março de 2010

Matéria de aula dos 2º anos, aos meus alunos do Rilando e do E.E.Diadema(Cefam)

Matéria de aula dos 2º anos, aos meus alunos do Rilando e do E.E.Diadema(Cefam)


Conforme combinado fica disponível a matéria trabalhada em sala de aula para estudos pessoais. Que possa auxiliá-los para uma compreensão melhor.
Façamos de cada pensamento uma colheita, para a edificação segura do conhecimento humano.
Não os trago caminho novo, o que lhes trago é uma nova forma de caminhar


JEAN – PAUL SARTRE (1905 – 1980)
Foi um expressivo expoente do existencialismo ateísta. Além do filósofo, foi novelista e crítico. Ao final da sua vida, distanciou-se do existencialismo, desenvolvendo seu próprio estilo de sociologia marxista.
Foi educado na École Normale Supérieure de Paris e posteriormente lecionou em vários liceus na capital francesa.
Durante a 2ª Guerra Mundial, serviu o exército e, durante nove meses, foi prisioneiro de Guerra na Alemanha. Após ter sido libertado, ingressou na Resistência Francesa.

OBRAS
Sartre existencialista
- A imaginação/ A Transcendência do Ego.
- A Náusea.
- O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica.
- As Moscas.
- Entre Quatro Paredes.
- O Existencialismo é um Humanismo. (Carta Sobre o Humanismo → Heidegger).
Sartre marxista
- Questão de Método.
- Crítica da Razão Dialética.

“O que é existir como um ser humano?” constitui a pergunta primordial de Sartre. O filósofo procura descrever o que denomina de “realidade humana” do modo mais geral. Sua resposta para tal pergunta já está inserida no título da obra O Ser e o Nada; visto que, segundo o filósofo, a realidade humana consiste de tais modos de existência, ser e nada, na dicotomia ser e não-ser.

JEAN – PAUL SARTRE (1905 – 1980)
1) Psicologia (pensamento sartreano sobre a consciência) → PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICA: consciência intencional.
Para Sartre, o eu faz parte da consciência, por isso, não tem o sentido transcendental de Husserl.
→ a consciência não é transcendental: o eu está projetado fora dela, no mundo.
EU (PROJEÇÃO) = angústias, desejos, ambições, revoltas etc.
A consciência é abertura para o mundo. Esta abertura possibilita que o eu se projete. O eu é projeção.
Sartre afirma que: “o homem é um projeto de si mesmo”. Esta afirmação significa que o homem está sempre em construção perpétua.
PROJETAR-SE é ter objetivos. Não ter objetivos é a mais absoluta alienação. O mundo seu sentido.
O sentido das coisas é sempre mutável, pois a projeção do eu nunca é completa. O sentido é uma projeção humana.
As coisas só são coisas porque o eu projeta-se sobre elas.

→ Todos os entes são gratuitos e contingentes. Este é o núcleo da filosofia existencialista de Sartre.

GRATUITOS → tudo que é, surge gratuitamente. Surge como poderia não surgir. Surge sem motivo. Não um telo nelas mesmas. O telo sempre é dado pela projeção do eu sobre elas.

Telo = finalidade.

O homem está em situação. Não há transcendência. É contingente gratuito.

NAÚSEA – é a percepção de que o homem é gratuito e contingente. O telo humano é aquilo que ele constrói para si mesmo.

2) Ser e Nada
em-si: os objetos, o mundo → opaco, pleno (preenchido de conteúdo), gratuito e contingente.
para-si: consciência DE (é sempre inacabada) → projetada no mundo: oca de ser/ oca de essência, é possibilidade, é ação, é liberdade.

O homem é livre, mas as condições de sua liberdade não é.
O homem é situado ou está em situação.
A liberdade é dada pela situação. As coisas que o homem escolhe estão determinadas.
Todos os atos transcendem as motivações, portanto, qualquer tentativa de eximir-sede responsabilidade é má-fé.
O homem é responsável por todos os seus atos. O homem está envolvido com tudo que lhe cerca.
MÁ-FÉ é negar a sua responsabilidade, é eximir-se da sua responsabilidade; é não assumir os fracassos.
RESPONSABILIDADE é assumir seus atos.

A escolha é absurda, pois todos os valores têm o mesmo valor.

• ANGÚSTIA – visão de que estamos projetados no abismo da liberdade.
• Deus não existe. Não há transcendência. Neste sentido, só o homem cria valores.
• ser-para-os-outros: subjetividade → objetivação.
• Sujeito é o homem (EU) → projetar-se no mundo.

Para Sartre sempre que um eu encontra outro eu, um dos eu vai tentar transformar o outro em objeto.
- objetivação: o outro é aquele que me vê e me mantém prisioneiro do seu olhar  pudor, timidez, inferioridade → o homem se vê desprovido de liberdade → conflito → “O inferno são os outros”.

HOMEM para Sartre → a minha projeção é sempre a luta contra o olhar objetivante do mundo. É lutar para não me transformar em objeto do outro.

O homem é um ser inacabado e por isso, está sempre em CONFLITO.



Fenomenologia transcendental – Husserl(1859-1938


A fenomenologia é um método de redução do mundo aos seus fenômenos apodíticos incontestáveis, que devem ser analisados pela consciência.

Husserl(1859-19380) critica a distinção entre aparência e coisa em si. As coisas são tais como a consciência lida com elas. Para isso, deve-se fazer a epoché, ou seja, devemos colocar entre parênteses (suspensão dos juízos ou duvida)



Epoché: afastamento dos prejuízos referente à existência do mundo, ou seja, é afastar da atitude natural (crença existente)
O resíduo da epoché sempre será os fenômenos → tudo é fenômeno: o desejo é fenômeno

Fenomenologia – reduz tudo ao fenômeno (essências)

É o modo de lhe dar com os fenômenos → Consciência (pensamento)

É sempre intencional: consciência de?

Consciência(transcendental) → projeta aos fenômenos → deseja algo / Pensa algo




Fenomenologia transcendental → “A filosofia de volta às coisas mesmas”

Consciência transcendental: são condições de possibilidade, diferentes modos de lidar com os fenômenos, pois, o fenômeno transcende o individuo.

Resumo de minhas aulas: Prof. Cristiano (Filósofo - PUC)

segunda-feira, 22 de março de 2010

7 motivos para ser professor do Estado do Governador SERRA


Leia com atenção os 7 (sete) motivos para você se tornar um Professor do Estado

7 (sete) é um número de destaque, pois ele simboliza a perfeição: em sete dias Deus fez o mundo, sete são as cores do arco-íris, mas também sete é conta de mentiroso. O 7 aqui será utilizado em relação à educação e, mais especificamente, ao professor.
Ser professor é socializar o saber, é construir, juntamente com o discente, um conhecimento que valorize o meio em que atua. Por isso, destacar-se-ão 7 motivos para incentivar, você, leitor a ingressar nessa brilhante carreira.

Leia-os com atenção e anote todos os detalhes:

1. Estude muito e leia bastante, principalmente a vida de São Francisco de Assis; lembre-se de que você também terá que fazer um voto eterno de pobreza;

2. Prepare-se para manejar certos instrumentos, com o giz e o apagador. Para tal, orientamos o personal stylest de Michael Jackson; você precisará de luva e máscara durante as aulas;

3. Manter-se em forma não será problema para você; com o corre-corre de uma escola para outra, você estará evitando o sedentarismo; com o salário que receberá, não precisará fazer regime; e caso precise complementar a cesta básica do mês, você ainda terá o privilégio de usar o TÍCKET DE 4 REAIS;

4. O educador é o único que pode acumular cargos: além de ministrar aulas em3 ou 4 colégios diferentes, ainda sobra tempo para ser sacoleiro, levando para as escolas os últimos lançamentos do Paraguai ou sendo importante representante de empresas como a AVON, a HERMES e a SHOPPING MAIS;

5. A formação continuada do professor é algo bastante importante e valorizada pelo governo. Com sorte, você será selecionado para ficar em um grande e luxuoso hotel como o IAT, desfrutar de ótimas instalações e saborear um cardápio variado; tudo isso com uma
localização privilegiada e com vista para o ma...to;

6. O local de trabalho deve ser evidenciado: o educador, quase sempre, trabalha em escolas-modelo, cujo slogan é a fartura: 'farta' limpeza, 'farta' funcionário, 'farta' material didático, enfim, 'farta' tudo;

7. Por fim, você desfrutará de um plano de saúde de ótima qualidade, cuja eficiência é demonstrada nos consultórios psiquiátricos repletos de professores que, ao completarem a idade e o tempo de serviço, já se encontram fatigados pelo trabalho, sugados pelo sistema e em pleno desmoronamento físico além do mental.

Assim, depois de ler essas sete dicas, não perca a oportunidade e não desista: vá a um posto do estado e inscreva-se no concurso do ESTADO.
O estado quer lhe receber de braços abertos. O nosso lema é: 'PAGUE PARA ENTRAR, REZE PARA SAIR'. Aos que já se encontram desfrutando desse 'néctar' que é ser funcionário da SEED, nossos parabéns, você é persistente e capaz. Possivelmente, não terá recompensa aqui na terra, mas é certo que já tenha adquirido lugar privilegiado no céu.

Professores decidem continuar com greve





Os professores da rede estadual de São Paulo votaram na tarde desta sexta-feira (19) a manutenção da greve por tempo indeterminado. A categoria paralisou as atividades no último dia 8, reivindicando reajuste salarial de 34,3%, entre outros pontos.

Manifestantes pretendem agora seguir para frente da Secretaria de Estado da Educação, na Praça da República, no centro da capital paulista. A Apeoesp, sindicato da categoria, estima que 40 mil pessoas se reuniram em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo), para a assembleia – a Polícia Militar, no entanto, prevê um número menor, de 8 mil participantes.
Maria Izabel Noronha, presidente da entidade, afirmou para os professores que a próxima assembleia será feita no dia 26 de março, diante do Palácio do Governo, na região do Morumbi, na zona sul da cidade. A intenção é pressionar o governo para anteder os pedidos do movimento.
Presidente do CPP (Centro do Professorado Paulista), José Maria Cancelliero, afirma que as entidades estão dispostas a negociar com o governo o fim da greve, desde que as reivindicações sejam atendidas:
- É o governo que não quer negociar. No ano passado, cinco pedidos de reunião, relativos ao reajuste salarial, foram protocolados na Secretaria de Estado da Educação. Nenhum foi atendido. Esse ano, outros pedidos foram protocolados.
A Secretaria de Estado da Educação de São Paulo informou, por meio da assessoria de imprensa, que só irá se pronunciar no final da tarde.

A luta de Classe - Karl Marx

Não basta existir uma crise econômica para que haja uma revolução. O que é decisivo são as ações das classes sociais que, para Marx e Engels, em todas as sociedades em que a propriedade é privada existem lutas de classes (senhores x escravos, nobres feudais x servos, burgueses x proletariados). A luta do proletariado do capitalismo não deveria se limitar à luta dos sindicatos por melhores salários e condições de vida. Ela deveria também ser a luta ideológica para que o socialismo fosse conhecido pelos trabalhadores e assumido como luta política pela tomada do poder. Neste campo, o proletariado deveria contar com uma arma fundamental, o partido político, o partido político revolucionário que tivesse uma estrutura democrática e que buscasse educar os trabalhadores e levá-los a se organizar para tomar o poder por meio de uma revolução socialista.
Marx tentou demonstrar que no capitalismo sempre haveria injustiça social, e que o único jeito de uma pessoa ficar rica e ampliar sua fortuna seria explorando os trabalhadores, ou seja, o capitalismo, de acordo com Marx é selvagem, pois o operário produz mais para o seu patrão do que o seu próprio custo para a sociedade, e o capitalismo se apresenta necessariamente como um regime econômico de exploração, sendo a mais-valia a lei fundamental do sistema.

terça-feira, 9 de março de 2010

Pré Socráticos

Os pré-socráticos são filósofos que viveram na Grécia Antiga e nas suas colônias. Assim são chamados pois são os que vieram antes de Sócrates, considerado um divisor de águas na filosofia. São chamados de filósofos da natureza, pois investigaram questões pertinentes a esta, como de que é feito o mundo.

Tales de Mileto- (+ ou- 640-548 a. C)
Tales é considerado o pai da filosofia grega, o primeiro homem sábio. Os pensadores de Mileto iniciaram uma física e uma cosmologia. Tudo seria alteração da água, em diversos graus. O alimento de toda a coisa é úmido. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água, no oceano. Segundo Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá origem à terra; ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que retornam como chuva quando novamente esfriados. Desse ciclo de seu movimento (vapor, chuva, rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida, vegetal e animal. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água; A água é a causa material de todas as coisas. Todas as coisas estão cheias de deuses. O imã possui vida, pois atrai o ferro.

Anaximandro (+ ou – 610-547 a. C)
É um filósofo da escola jônica, natural de Mileto e discípulo de Tales. Foi geógrafo, matemático, astrônomo e político. Ao contrário de Tales não deu à gênese um caráter material. O apeíron é eterno e indivisível, infinita e indestrutível. O princípio é o fundamento da geração de todas as coisas, a ordem do mundo evoluiu do caos em virtude deste princípio. Eterno, o ápeiron está em constante movimento, e disto resulta uma série de pares opostos - água e fogo, frio e calor, etc. - que constituem o mundo.


Anaxímenes de Mileto (588-524 A.C.) "Ar"
foi um filósofo da escola jônica, que tem como característica básica explicar a origem do universo ou arché a partir de uma substância única fundamental. Refutando a teoria da água de Tales, e do ápeiron de Anaximandro, Anaxímenes ensinava que essa substância era o ar infinito, pneuma ápeiron. O universo resultaria das transformações do ar, da sua rarefação, o fogo, ou condensação, o vento, a nuvem, a água e a terra e por último pedra. Tudo provém do ar, através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida; o fogo é o ar rarefeito; a água, a terra, a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar.

Pitágoras (século VI a.C.)
Conhece-se muito pouco sobre a vida desse filósofo, pois foi uma figura legendária, e é difícil distinguir o que é verdade e o que é mentira. Nasceu em Samos, em uma época em que na Grécia estava instituído o culto ao deus Dioniso. Acreditava na divindade do número. O um é o ponto, o dois determina a linha, o três gera a superfície e o quatro produz o volume. Os pitagóricos concebem todo o universo como um campo em que se contrapõe o mesmo e o outro. É de Pitágoras o teorema do triângulo retângulo. Fundou uma seita, em que a salvação dependia de um esforço humano subjetivo, e que tinha iniciação secreta. Os números constituem a essência de todas as coisas segundo sua doutrina, e são a verdade eterna. O número perfeito é o dez, por causa do triângulo místico. Os astros são harmônicos. Foi Pitágoras que inventou a palavra filosofia – (amizade ao saber).


Heráclito- (+ ou – 540-470 a. C)
Nasceu em Éfeso, cidade da Jônia, descendente do fundador da cidade. É considerado o mais importante dos pré-socráticos. É dele a frase de que tudo flui. Não entramos no mesmo rio duas vezes e o sol é novo a cada dia. É o filósofo do devir, a lei do universo, tudo nasce se transforma e se dissolve, e todo o juízo seria falso, ultrapassado. Problema: Parmênides e Heráclito defendiam dois pontos principais diametralmente opostos. Parmênides dizia:

* a) nada muda,
* b) não se deve confiar em nossas percepções sensoriais.

Heráclito, por outro lado, dizia:

* a) tudo muda (“todas as coisas fluem”), e
* b) podemos confiar em nossas percepções sensoriais.

Quem estava certo? Coube ao siciliano Empédocles (c. 490-430 a.C.) indicar a saída do labirinto.

Como estudioso da physis, Heráclito acreditava que o fogo era a origem das coisas naturais.

Mitologia Grega

A mitologia grega compreende o conjunto de mitos, lendas e entidades divinas e/ou fantásticas, (deuses, semideuses e heróis) presentes na religião praticada na Grécia Antiga, criados e transmitidos originalmente por tradição oral, muitas vezes com o intuito de explicar fenômenos naturais, culturais ou religiosos - como os rituais - cuja explicação não era evidente. As fontes remanescentes da mitologia grega ou são transcrições dessa oralida de criação.
Os historiadores da mitologia grega têm, muitas vezes, de se basear em dados fragmentários, descontextualizados (fragmentos de obras literárias, por exemplo) ou através de indícios transmitidos na iconografia grega (principalmente, os vasos) para tentarem reconstituir a riqueza narrativa e conceptual de uma das mitologias mundiais que mais interesse desperta.
Nas suas várias lendas, histórias e cânticos, os deuses da antiga Grécia são descritos como quase humanos em aparência, porém imunes ao tempo e praticamente imunes a doenças e feridas, capazes de se tornarem invisíveis, de viajarem grandes distâncias quase que instantaneamente e de falarem através de seres humanos sem o conhecimento destes.
Cada um dos deuses tem sua própria forma física, genealogia, interesses, personalidade e sua própria especialidade. Essas descrições, no entanto, têm variantes locais que nem sempre estão de acordo com as descrições usadas em outras partes do mundo grego da época. Quando esses deuses eram nomeados em poesias ou orações, eles se referiam a uma combinação de seus nomes e epítetos, com estes os identificando, distinguindo-os de outros deuses. Atualmente, apenas o povo Kalasha, do Paquistão, mantém como religião viva o panteão grego.

→ Natureza da mitologia grega
Enquanto todas as culturas através do mundo têm suas próprias mitologias, esse termo é de cunhagem grega e teve um sentido específico nessa cultura. Ele deriva de mythologia:
• Mythos, que no grego homérico significa superficialmente um discurso ritualístico de um chefe, um poeta ou um sacerdote;
• Logos, que no grego clássico significa "uma história convincente, um argumento em ordem";
Originalmente, então, a mitologia é uma tentativa de trazer sentido às narrativas estilizadas que os gregos recitavam em festivais, sussurravam em locais sagrados e espalhavam em banquetes de aristocratas.
→ Visão geral
O espectro da mitologia grega é enorme. Abrange desde os crimes mais cruéis dos primeiros deuses e as sangrentas guerras de Tróia e Tebas, à infância de Hermes e o sofrimento de Deméter por Perséfone.
→ A era dos deuses
Assim como seus vizinhos, os gregos acreditavam num panteão de deuses e deusas que eram associados a específicos aspectos da vida. Afrodite, por exemplo, era a deusa do amor, enquanto Ares era o deus da guerra e Hades o dos mortos.
Algumas deidades como Apolo e Dionísio revelavam personalidades complexas e uma variedade de funções, enquanto outros como Helios ("sol") eram pouco mais que personificações. Existiam também deidades de lugares específicos, como deuses de rios e ninfas de nascentes e cavernas. Tumbas de heróis e heroínas locais eram igualmente veneradas.
Apesar de centenas de seres poderem ser considerados deuses ou heróis, alguns não representavam mais que folclore ou eram honrados somente em lugares (Trophonius) e/ou festivais específicos (Adonis).
Rituais de maior abrangência e os grandes templos eram dedicados, em sua maioria, a um seleto círculo de deuses, notadamente os quinze do Olimpo, Heracles e Asclepio. Estas deidades eram o foco central dos cultos pan-Helênicos.
Muitas regiões e vilas tinham seus próprios cultos a ninfas, deuses menores ou ainda a heróis e heroínas desconhecidos em outros lugares. A maioria das cidades adoravam os deuses maiores com rituais peculiares e tinham para estes lendas igualmente próprias.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Mas o que é mesmo filosofia?

A Filosofia é um ramo do conhecimento que pode ser caracterizado de três modos: seja pelos conteúdos ou temas tratados, seja pela função que exerce na cultura, seja pela forma como trata tais temas. Com relação aos conteúdos, contemporaneamente, a Filosofia trata de conceitos tais como bem, beleza, justiça, verdade. Mas, nem sempre a Filosofia tratou de temas selecionados, como os indicados acima. No começo, na Grécia, a Filosofia tratava de todos os temas, já que até o séc. XIX não havia uma separação entre ciência e filosofia. Assim, na Grécia, a Filosofia incorporava todo o saber. No entanto, a Filosofia inaugurou um modo novo de tratamento dos temas a que passa a se dedicar, determinando uma mudança na forma de conhecimento do mundo até então vigente. Isto pode ser verificado a partir de uma análise da assim considerada primeira proposição filosófica.


Se dermos crédito a Nietzsche, a primeira proposição filosófica foi aquela enunciada por Tales, a saber, que a água é o princípio de todas as coisas [Aristóteles. Metafísica, I, 3].


Cabe perguntar o que haveria de filosófico na proposição de Tales. Muitos ensaiaram uma resposta a esta questão. Hegel, por exemplo, afirma: “com ela a Filosofia começa, porque através dela chega à consciência de que o um é a essência, o verdadeiro, o único que é em si e para si. Começa aqui um distanciar-se daquilo que é a nossa percepção sensível”. Segundo Hegel, o filosófico aqui é o encontro do universal, a água, ou seja, um único como verdadeiro.


Nietzsche, por sua vez, afirma:


“a filosofia grega parece começar com uma idéia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matiz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisália [sic], está contido o pensamento: ‘Tudo é um’. A razão citada em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira dessa sociedade e no-lo mostra como investigador da natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro filósofo grego”.


Trecho extraído de Artigo redigido pelo Prof. Dr. Delamar José Volpato Dutra [UFSC/CNPq].

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Despertar para uma vida apartir da construção de sua história

O que dizer de uma biografia, quando sabemos que é apenas um fragmento de uma vida. E nela trazemos uma carta como o fio da meada que uniu assuntos diversos no contexto do desenvolvimento humano da unidade mágica da pequena criança, à unidade adulta, às relações íntimas possíveis dos homens entre si.
Uma carta jogada ao vento que busca encontrar seu próprio lugar, em um destino desconhecido, chamada a guiar outro na busca de um significado, sem perder seu próprio lar. Sim, são palavras, de um suave destino, lançado em memória fiel, talvez a única que, de uma forma, marcará caminhos e, certamente passará leve e breve até desfazer-se e perder sua mensagem na vida de outros, quando num cair da noite, a escuridão, esconder suas esperanças.
Esperanças de uma sociedade, como filhos de uma pátria miscigenada que busca seu papel, construindo suas histórias como famílias que batalha em meio a tantas dificuldades. Famílias que um dia deixaram sua terra natal, em busca de um novo horizonte, onde o sol brilhe mais forte, em busca de paz e solidariedade.
Mas, se o homem realmente tem de amar seu próximo como a si mesmo, parece haver uma boa razão para perguntar, se ele hoje é suficientemente capaz de se relacionar consigo mesmo de uma maneira criativa e de viver a partir do centro de sua existência.
A cada dia, novas histórias são lançadas, a cada papel em branco, novas vidas vão ganhar brilhos e compartilhar com seu crescimento. Novas identidades individuais surgirão de alguém que clama a se tornar conhecido e permear todos os caminhos obscuros, em busca de uma voz que clama no deserto, no incessante encontro com o destino ainda desconhecido, dando ênfase há um tempo em que os problemas sociais são tão urgentes.
Novas vidas vão se encontrar, quando novas histórias começar, não como um livro, mas como um novo despertar...

Autoria própria de Cristiano Leme(filósofo)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Requião pede indicação pós-mortem de Zilda Arns ao Prêmio Nobel da Paz





O governador do Paraná, Roberto Requião, chegou ao velório de Zilda Arns por volta das 13h desta sexta-feira (15) e anunciou que vai pedir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que indique a médica sanitarista ao prêmio Nobel da Paz 'pós-mortem'.

Zilda Arns havia sido indicada ao prêmio em 2001. "Se o presidente não encampar essa campanha, o Paraná todo vai encampar", disse o governador paranense.

O encontro entre os dois deve ocorrer por volta das 19h desta sexta-feira, quando o presidente Lula chega de São Luís a Curitiba, após cumprir agenda de governo. A informação foi confirmada por Gilberto Carvalho, chefe do gabinete presidencial.

O corpo de Zilda está sendo velado no Palácio das Araucárias, sede provisória do governo do estado, com caixão fechado. O enterro está previsto para as 14h do sábado (6), no cemitério da Água Verde, após a realização de uma missa celebrada por dom Geraldo Majella Agnelo, bispo-primaz do Brasil e co-fundador da Pastoral da Criança. A cerimônia será transmitida por telão para o público que estiver do lado de fora do palácio.

Segundo o senador Flávio Arns (PSDB-PR), ela será sepultada ao lado do túmulo do marido Dionísio Neumann. Centenas de fiéi, amigos e simpatizantes de Zilda Arns se despediram dela nesta sexta-feira.

Lula deve ir ao velório de Zilda Arns Família diz que corpo de Zilda Arns deixará o Haiti ainda nesta quinta Zilda Arns deve ser velada em Curitiba Zilda Arns não foi soterrada no Haiti, diz sobrinho Corpo de Zilda Arns está em poder do Exército Brasileiro no Haiti Relembre a trajetória de Zilda Arns Personalidades lamentam a morte de Zilda Arns em terremoto Lula está 'chocado' com a morte de Zilda Arns, diz Amorim

Ele acompanhou o traslado do corpo da médica sanitarista do Haiti para o Brasil na madrugada desta sexta-feira. "O Haiti está completamente destruído, por isso o corpo de dona Zilda veio da maneira que veio, mas foi a melhor maneira encontrada diante da situação do país. Não há condições mínimas. É inacreditável. Há mortos espalhados pelas ruas. A destruição foi completa. Falta comida, água, médicos e suprimentos básicos. As crianças choram nas ruas, pedindo ajuda", disse ele.

"Não consegui chegar perto da igreja onde ela estava. Está tudo muito destruído. Para se ter uma ideia, ainda há 16 corpos no local onde estava dona Zilda. O tremor foi muito forte no lugar. Foi uma infelicidade, pois ela deu um passo para um lado e foi atingida pelo telhado e caiu do terceiro piso. O padre que estava com ela, deu um passo para o outro lado e sobreviveu", disse Flávio Arns.

Ele disse ainda que uma escola que funcionava ao lado da igreja ficou completamente destruída. "O prédio inteiro ruiu com o tremor. Havia muitas crianças lá dentro e parece que os corpos ainda não foram encontrados", afirmou Flávio.

"Precisamos adotar o Haiti. O Brasil tem uma mártir naquele país e uma referência para aquele povo", disse Gilberto Carvalho.

Dom Aldo Di Cilo Pagotto, arcebispo da Paraíba e presidente do conselho da Pastoral da Criança, disse que o carisma de Zilda Arns vai ficar marcado na memória do povo de 20 países por onde a médica sanitarista atuou. "Ela deixa um trabalho de 300 mil líderes. Tudo vai continuar. Ela uniu o caráter evangelizador com a prevenção da dignidade humana."

Vera Lúcia Altoé, coordenadora nacional da Pastoral da Criança, disse que que Zilda Arns tinha uma agenda programada para visitar um país por mês até o fim de 2010. "A casa construída sobre uma rocha nunca será destruída.Vamos continuar o trabalho da pastoral, cuidando das crianças e dos idosos como eles merecem.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Debate entre filósofo ateu e papa Bento 16 vira livro

Deus existe? A provocadora questão, que tanto gera controvérsia entre cristãos e ateus, foi tema de um acalorado debate, em 2000, entre o filósofo Paulo d'Arcais e o cardeal Joseph Ratzinger, hoje papa Bento 16. Quase dez anos depois, o conteúdo do embate de peso pode ser conferido no livro "Deus Existe?", lançado pela editora Planeta.

A obra vai além da distinta visão entre a fé e a razão sobre a existência ou não de um ser superior. Trata também de temas polêmicos, entre eles o aborto. Do confronto de ideias, eis um livro que tem por pretensão ajudar as pessoas a encontrar respostas para tantas dúvidas que permeiam o assunto.

"Deus Existe?"
Autores: Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais; editora Planeta (128 páginas). Preço médio praticado na internet: R$ 20.



Colaborador: Rodney Eloy

O filósofo voltou

Olá pessoal, a quem achou que eu sumi, afirmo que estou de volta, sempre preocupado com a verdade, por isso, caro leitores, não os deixarei na mão.Volto com minhas publicações em busaca de um verdadeiro conhecimento, pois, segundo Locke nascemos como uma tabua raza, portanto, a experiência se faz nacessário para que construamos um conhecimento seguro, longe das antigas crenças.
Obrigados a todos pela paciência

Mais um ano se vai e com ele realizações e fracassos.

Ora, as realizações servem para agradecer ao bom Deus pelas graças que nos concedeu, e os fracassos nos servem para pedir mais força a Deus para suportar as diversidades da vida.

Natal é tempo de trocar presentes. O maior presente trocado na história da humanidade foi à vinda de Jesus encarnardo na Terra. Ele sendo Deus, aceitou nascer de uma virgem, fazendo-se homem como nós para experimentar na carne as nossas fraquezas e ser portanto solidários com as nossas dores. Agora com esse Jesus que nasce em todos os corações possamos adentrar a esse ano que chega na esperança de um novo tempo e uma nova vida. Saibamos reconstruir o que deixamos inacabado e tenhamos a força para criar o que há para ser criado e possamos ser solidário e chorar com aqueles que choram por um mundo melhor.
Construamos ora, pois, esse mundo!!!!!!!!!!!!!!!!

Que os leitores e os novos leitores do aletheiafilosofia.blogspot.com tenham um Ano Novo cheio de esperança e realizações.
Esse são os desejos do Editor Cristiano ( filósofo e mestrando em filosofia)

Um Santo Natal para todos


Mais um ano se vai e com ele realizações e fracassos.

Ora, as realizações servem para agradecer ao bom Deus pelas graças que nos concedeu, e os fracassos nos servem para pedir mais força a Deus para suportar as diversidades da vida.

Natal é tempo de trocar presentes. O maior presente trocado na história da humanidade foi a vida de Jesus encarnardo na Terra. Ele sendo Deus, aceitou nascer de uma virgem, fazendo-se homem como nós para experimentar na carne as nossas fraquesas e ser portanto solidários com as nossas dores.

Quer maior presente que este?

Portanto, saibamos todos agradecer a Deus pela vinda do menino Jesus, e reafirmar o propósito de a cada dia do próximo ano que se aproxima fazer com que ela nasça nos nossos corações.

Que os leitores do aletheiafilosofia.blogspot.com tenham um santo Natal e um próspero Ano Novo.


Este é o desejo do editor Cristiano Leme.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Filosofia não é brincadeira não!

Outro dia estava olhando alguns anúcios de cursos superiores e me deparei com um questionamento intrigante: o ensino nada mais é do que uma mercadoria.
Ora, não sou ingênuo e romântico. Sei que todas as faculdades particulares estão a procura de alunos e nesta jogada vale tudo, desde mp3 até computadores portáteis.
No entanto, o meu pensamento se concentrou numa outra temática. Os cursos são apresentados como se fossem mercadorias.
Você entra numa determinada universidade, clica no curso e lá estão eles descritos de uma forma totalmente apelativa.
A educação pragmática é terrível. Ela mina todo ideal universitário da pesquisa, do aprofundamento e da reflexão.
Os alunos agora vão, estudam 3 ou 4 anos para pegar o diploma e cair no mundão de Deus, abastecendo assim as fileiras do capitalismo.
Qual a consequência? Milhares de diplomados analfabetos.
Criamos no Brasil técnicos e dos bons diga-se de passagem. Mas não conseguem levar avante um discurso coeso e coerente sobre um determinado assunto.
Não é de se estranhar que ninguém mais consegue parar na frente de um LIVRO (coloquei livro em letras maiúsculas para diferenciar LIVROS dos livros que os jovens e adultos hoje estão acostumados a lerem.
Não temos mais espaço para uma reflexão profunda. Tudo é líquido e escapa das mãos num piscar de olhos.
Bem, mas onde eu quero chegar com todo este preâmbulo?
Quero chegar numa única afirmação: ao contrário dos cursos apresentados nos sites das "unis" da vida, a filosofia tem e precisa ser o diferencial. É a única ciência capaz de pensar as origens e criticar-se a si mesma.
Portanto, vamos salvar ainda o que resta. Vamos salvar a filosofia. O resto, já foi pelo ralo.

Kierkegaard um pensador atual

"Hoje já não se pode dizer que, no Brasil, não se leu Kierkegaard. Há vinte anos, foi possível ironizar dizendo que aqui não se lera, só se escrevera sobre Kierkegaard. Agora não!” A afirmação é do Prof. Dr. Álvaro Valls, na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Tradutor de O conceito de angústia, ainda no prelo, Valls disse que agora a obra poderá ser lida em uma tradução fiel e filosófica, investigada em “seus aspectos dialéticos, platônicos, agostinianos, schellinguianos, hegelianos”. De acordo com ele, atualmente, existem inúmeros trabalhos de pós-graduação sobre Kierkegaard em nosso país. A respeito da recepção da filosofia desse pensador em nossa terra, Valls assinala que esta difere da alemã, francesa e japonesa. Ele explica: “Trata-se de uma recepção bem humorada, competente, mais divertida, sem perder tempo com polêmicas rancorosas”.
Valls é doutor em Filosofia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha). Professor titular do PPG-Filosofia da Unisinos, é pesquisador do CNPq, presidente do Grupo de Estudos sobre as obras de Kierkegaard nesta instituição e um dos fundadores da Sociedade Kierkegaard do Brasil (Sobreski). Traduziu algumas obras desse filósofo direto do dinamarquês, publicadas na coleção Pensamento Humano, pela Editora Vozes, e está finalizando a tradução de uma obra de Theodor Adorno para a Editora UNESP. De sua produção bibliográfica, citamos Entre Sócrates e Cristo (Porto Alegre: Edipucrs, 2000) e O que é Ética? (São Paulo: Brasiliense, 1983). Com Jorge Miranda de Almeida, escreveu Kierkegaard (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007). Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard, apresenta em 13 de novembro a comunicação Três leituras que Adorno fez de Kierkegaard.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Em seu livro Entre Sócrates e Cristo, o senhor faz a seguinte afirmação: “Ora, se a ironia é uma atitude diante da vida, é também uma forma de comunicação”. O que significa isso?
Álvaro Valls
- A ironia, na tradição socrática, é uma atitude relacionada ao nada (ver: “só sei que nada sei”) e mais radical que o niilismo, o cinismo e o ceticismo. Embora Hegel, na sua História da Filosofia, a reduza a “uma maneira de conversar”, ela é bem mais do que isso, é uma atitude diante da vida, que desafia o dogmatismo dos donos da verdade e questiona os que abstraem de sua própria subjetividade. Kierkegaard, que penetrou no mundo grego orientado por Poul Martin Møller (a quem dedicou O conceito angústia), apropriou-se da ironia da maiêutica socrática, porém considerou necessário colocá-la a serviço de uma ideia mais alta. Argumentou que, depois do ensinamento de Jesus Cristo, a ironia não tinha mais o direito de ficar com a última palavra: essa foi sua crítica, p. ex., à chamada ironia romântica. Mas a ironia poderia ser utilizada, na comunicação, como arma ou instrumento, pela elasticidade que ela proporciona aos enunciados, devido à distância entre a intenção do falante (o que este “quer dizer”, relacionado à dimensão pragmática) e o significado semântico da proposição. Numa sociedade saturada de certezas, a comunicação deve esforçar-se por provocar curiosidade mais do que por fornecer novas certezas. A ironia representa, na vida humana autêntica, um papel semelhante ao da dúvida na filosofia moderna: há que começar por elas.
IHU On-Line - Há alguns anos, o senhor, invocando um personagem de Lima Barreto, se autodefiniu como uma ave rara, um dos poucos brasileiros que lia Kierkegaard em Dinamarquês. De lá para cá, mudou alguma coisa?
Álvaro Valls
- Mudou muita coisa! Antes dos trabalhos pioneiros de Ernani Reichmann, em Curitiba, nos anos 1960 e 1970, talvez só Alceu de Amoroso Lima (dos nomes mais conhecidos no Brasil) tenha conseguido penetrar com alguma profundidade na obra do então chamado “pai do existencialismo”. E era uma aproximação no mínimo cautelosa, como se depreende do título da obra de Alceu: O existencialismo e outros mitos de nosso tempo. Mesmo quando um bom escritor e poeta português, como Adolfo Casais Monteiro, traduzia um livro de Kierkegaard, como aquele sobre as formas do desespero, não sentia a necessidade de ler o texto original. Assim, para mim, os anos 1980, após meu doutorado em Heidelberg com Michael Theunissen, foram anos de deserto, só aliviados, por algum tempo, pela amizade do conterrâneo Ernani Reichmann e do francês Henri-Bernard Vergote, que me deram como uma missão (ou um desafio) fazer tais traduções. Reichmann me apelidava de “kierkegaardiano de escola”, consciente do oxímoro que isso representava. Hoje, porém, já temos em andamento no Brasil dezenas de trabalhos de pós-graduação sobre Kierkegaard. Há cerca de uma dúzia de professores e estudiosos com doutorado sobre ele (seja em São Paulo ou Campinas, seja na Itália ou na Noruega). Fizemos nove Jornadas de estudos nos últimos nove anos, pelo Brasil afora. Colegas nossos já publicaram vários livros de boa qualidade, como recentemente Marcio Gimenes de Paula e Jorge Miranda de Almeida. Vários doutores brasileiros já desfrutaram das ótimas condições de pesquisa da Kierkegaard Library, de Minnesota. Jonas Roos investigou por mais de um ano no Centro de Pesquisa de SK, em Copenhague. As traduções novas que vão aparecendo têm sido feitas sempre a partir do original. O Conceito de ironia já chegou à terceira edição, As obras do amor em pouco tempo alcançou a segunda edição. Quem estará comprando e lendo esses livros? Kierkegaard começa a ser lido e discutido, a ser compreendido e relacionado dentro da história do pensamento filosófico.
IHU On-Line - A Sociedade Brasileira de Estudos de Kierkegaard (Sobreski), da qual o senhor é um dos fundadores, possui o seguinte lema “Uma sociedade ironicamente correta”. O senhor concorda que esse lema resume, de certa forma, a recepção brasileira do pensamento de Kierkegaard e tornou-se o leitmotiv dos estudiosos brasileiros?
Álvaro Valls
- Parece que sim. “Ironicamente correto” é uma expressão que ocorre na Dissertação de 1841. A recepção brasileira difere da alemã, da francesa e da japonesa. Trata-se de uma recepção bem humorada, competente, mais divertida, sem perder tempo com polêmicas rancorosas. Este lema (inventado por brincadeira, numa ironia redobrada) aponta para nossa tese da leitura (tal como o propunha o grande pesquisador Henri-Bernard Vergote em Sens et Répétition: Essais sur l'ironie kierkegaardienne (Paris: Le Cerf, 1982) da obra como um todo, desde a Dissertação de 1841 até a polêmica final com a Igreja oficial dinamarquesa (interpretada em sua teatralidade maiêutica: “a caráter”) além do material dos Papirer, ou seja, a sugestão de que queremos ler a obra de Kierkegaard sem nos satisfazermos com aspectos anedóticos de sua biografia e uns poucos textos pseudônimos. E se Kierkegaard foi chamado “o Sócrates nórdico” é por haver muita ironia até em suas obras aparentemente mais sérias e de feição mais acadêmica, como no Conceito angústia, por exemplo. “Ironicamente correto” lembrava também que fizemos oito Jornadas de Estudos sem solicitar verbas das agências financiadoras. E nos reunimos por oito anos numa Sociedade sem nenhuma burocracia (e claro que sem dinheiro). Outra ironia foi quando, numa das nossas primeiras Jornadas, a única participante que não era patrícia nossa era Patrícia Dip, da Argentina.
IHU On-Line - Pela primeira vez esta Jornada de Estudos de Kierkegaard é promovida pela Sobreski em parceria com a Biblioteca Kierkegaard, de Buenos Aires. O que o senhor espera dessa parceria com os pesquisadores argentinos?
Álvaro Valls
- O mundo de idioma espanhol dispõe de traduções melhores a mais tempo do que nós. E nossos colegas argentinos vêm discutindo a obra de Kierkegaard com grande seriedade há vários anos. Darío González, por exemplo, trabalhou no Centro de Copenhague por muito tempo. Andrés Albertsen lidera a Igreja Dinamarquesa de Buenos Aires. Em metade de nossas Jornadas, tivemos a sorte de contar com colegas argentinas como Patrícia Dip e Maria José Binetti, que alguns de nós também encontraram na Kierkegaard Library do St. Olaf College, em Northfield, MN, nos Estados Unidos. Os contatos se multiplicaram, aqui e nas Jornadas Argentinas, da Biblioteca Kierkegaard, no ISEDET de Buenos Aires, e daí surgiu naturalmente a ideia de que, a partir de nossa décima Jornada, deveríamos somar os esforços. Dois dias lá, com alguns de nós, e dois dias aqui, com alguns deles. E que isso se mantenha nas próximas Jornadas, como uma boa tradição de integração. A parte brasileira dessas Jornadas, este ano, conta com apoio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, e até da CAPES. Teremos, lá e aqui, mais alguns participantes ilustres de outros países, como o português João Vila-Chã SJ, atualmente na Universidade Gregoriana, em Roma.
IHU On-Line - O senhor é reconhecido como o tradutor das obras de Kierkegaard ao vernáculo, e essa tarefa até agora cumpriu a sua função de fornecer boa tradução aos leitores brasileiros. Nesse sentido, o que espera da publicação da tradução de O conceito de angústia, traduzida diretamente do original, e que está no prelo, para as pesquisas no Brasil?
Álvaro Valls
- O conceito de angústia é um livro muito rico, profundo e difícil, além de fascinante. As traduções de que dispúnhamos até agora dependiam de traduções de outras línguas e não eram muito exatas. A nossa procurou levar em conta aspectos filosóficos que estavam obscurecidos e, ajudados, como de costume, por Else Hagelund, a manter a fidelidade à língua do autor. A leitura desta tradução, que deve aparecer pela Vozes em fins de janeiro de 2010, não será fácil, estou convencido disso, mas se tornará mais produtiva. Por outro lado, se nossas traduções têm algum valor, está ligado ao esforço de fidelidade, de manter o pensamento filosófico no seu nível e no esforço de usar uma linguagem nossa tal como Kierkegaard a usaria, pelo que conhecemos dele. A partir de uma tradução fiel e filosófica, o livro poderá ser investigado em seus aspectos dialéticos, platônicos, agostinianos, schellinguianos, hegelianos etc., além de ser alvo de estudos de toda a chamada área Psi.
IHU On-Line - Quais são os seus projetos para os próximos anos à frente do Grupo de pesquisa sobre a obra de Kierkegaard (CNPq) da qual é o presidente?
Álvaro Valls
- A situação do livro sobre a angústia é similar à da obra de 1849, A doença para a morte, conhecida entre nós em três ou quatro traduções indiretas, e, cada vez mais inexatas, e por temos grande a esperança no trabalho que o Dr. Jonas Roos, um de nossos quadros mais bem formados (agora professor de Filosofia da Religião na Universidade Federal de Juiz de Fora, MG), está fazendo. Torcemos para que seja publicada em 2010, e aí os dois passos seguintes teriam de ser passar ao nosso idioma o Postscriptum final não científico e a Escola (ou Prática) do Cristianismo. Há planos em nosso grupo de traduzir a polêmica de O instante e outros textos. É possível prever, pois, para os próximos dez anos, uma década de discussões competentes, a partir de textos bons em nosso idioma, e de produção de textos de qualidade que modificarão completamente nosso panorama. Em 2010, deverá ser publicada também a tradução que estou terminando da famosa livre docência de Adorno, orientada por Tillich, Kierkegaard - Construção do Estético pela UNESP. Jasson Martins, Jonas Roos, Sílvia Saviano Sampaio e Ilana Amaral já têm livros escritos que podem ser lançados em pouco tempo. E há uma coletânea, indo para o prelo, bem adiantada, sobre O conceito de angústia. Antes disso aparecerão, por certo, os melhores trabalhos dessas Jornadas de 2009.
IHU On-Line - Qual é a atualidade de Kierkegaard no contexto do pensamento filosófico contemporâneo?
Álvaro Valls
- Nos anos 1980, escrevi um artigo para o Folhetim da Folha de São Paulo, com esse título: A atualidade de Kierkegaard. O editor do Folhetim preferiu usar como título uma frase de meu texto: “E não se leu Kierkegaard”. Foi graças a esse artigo que conheci Vergote, que logo apresentei a Reichmann, então a ave rara das boas traduções de Kierkegaard no Brasil. Vergote congratulava-se com os franceses porque agora, com as Œuvres Complètes, das Éditions de l’Orante, traduzidas por Paul-Henri Tisseau, já podiam ler a obra desse autor. Hoje já não se pode dizer que, no Brasil, não se leu Kierkegaard. Há vinte anos, foi possível ironizar dizendo que aqui não se lera, só se escrevera sobre Kierkegaard. Agora não! Os recentes livros de Marcio Gimenes de Paula e Jorge Miranda de Almeida (que já publicou comigo uma introdução, na Zahar) demonstram já haver bastante consciência da contribuição desse pensador para as nossas questões. Na sociedade de massas, o indivíduo, no sentido enfático, ainda é a categoria crítica fundamental. Na globalização e no pensamento da identidade, a defesa adorniana do não-idêntico provém diretamente de sua tese sobre nosso pensador. O pensamento ético de um Wittgenstein costuma ser relacionado quase que exclusivamente a Schopenhauer, mas suas leituras de Kierkegaard eram de grande seriedade. E o que dizer de pensadores como Heidegger, Lévinas, teólogos como Barth, Tillich e Bultmann, e escritores como Thomas Mann e Max Frisch, que se apropriaram tanto dele, de forma tão produtiva? Quantas de suas provocações levaram Lacan e Derrida a ter novas ideias? E nem falemos da Hermenêutica do sujeito e do Cuidado de si, de Foucault, livros tão próximos de suas ideias que até parece que Kierkegaard os teria lido. E os teria lido, de fato, se tivesse podido, tal como lera Feuerbach e leu muito Schopenhauer nos seus últimos cinco anos. Por isso se pode até lamentar que Nietzsche tivesse prometido “ocupar-se com o fenômeno Kierkegaard” apenas em 1889. Foi tarde demais para ele, mas para nós ainda há um bom tempo.
Fonte> UNISINOS

Kant e a Consolidação da Modernidade

Ao buscar-se uma compreensão do processo de consolidação da Modernidade, principalmente no que se refere à sua caracterização enquanto momento do pensamento humano, é fundamental uma abordagem da imensa contribuição que o filósofo Immanuel Kant (1724 – 1804) nos deixou. Bem vale lembrar que foi Kant quem mais questionou as pretensões da razão em conhecer e em ser o tribunal de todo o conhecimento possível.

A obra kantiana é extremamente complexa, fato inegável, pois a sua preocupação está em compreender todo o processo do conhecimento humano e como este influi no cotidiano. Não podemos aqui simplesmente dividir a obra kantiana para que possamos abordar um aspecto que nos pareça relevante, isso, com certeza, fará com que nossa interpretação seja parcial e incorreta. O trabalho desse filósofo se dá em três vertentes: conhecer, julgar e querer; e sob elas é que deve ser interpretado.

Intentamos analisar de forma isolada a preocupação que Kant tem em relação ao conhecer, contudo, não podemos deixar de ter em perspectiva que o conhecer está associado ao julgar e ao querer.

Para Kant, todo conhecimento tem início na experiência, contudo, a experiência não é a única fonte do conhecimento, ou seja, não implica necessariamente que todo conhecimento provenha da experiência, mas que poderia muito bem acontecer como um misto entre o nosso conhecimento experimental e daquilo que a nossa própria razão fornece. Assim, chega à conclusão de que temos três possibilidades de juízos: analíticos, sintéticos a priori e sintéticos a posteriori. Sua concentração maior se dará em demonstrar a existência dos juízos sintéticos a priori.

Assim, a grande questão que Kant procura responder é: como são possíveis juízos sintéticos a priori?. Vemos, então que Kant pretende ir além das teorias tradicionais, como também das correntes filosóficas predominantes de seu tempo, tais como Racionalismo, Empirismo e Ceticismo, aproveitando as contribuições que essas correntes modernas da Filosofia lhe legaram, levando-as às últimas consequências e sendo radicalmente distinto delas.

As ciências em geral trabalham com juízos sintéticos a posteriori, pois acrescentam elementos ao conhecimento advindos da experiência, ou mesmo por juízos analíticos, ou tautológicos, utilizados para explicitar conteúdos já presentes no objeto estudado e que desta feita não acrescentam novos conhecimentos ao objeto. Atuando dessa forma, as ciências podem chegar a novas conclusões, de caráter limitado e contingente, pois seus resultados não são universais nem necessários por estarem dependentes da experiência, sendo sempre passíveis de modificação.
Contudo, Kant destaca a Física e a Matemática de seu tempo como modelos de conhecimento, pois tais ciências possuem em seu conjunto teórico proposições sintéticas a priori. Pretensão essa que a própria Filosofia almejava.

Dessa forma, Kant toma a Física e a Matemática de seu tempo como modelos de conhecimento, pois conseguiram cercar com maestria seu objeto de estudo. Isso é tão forte em Kant que o mesmo tenta empregar esse modelo de conhecimento para a Metafísica, apontando para as antinomias da Razão, ou seja, para os enganos e contradições que a Razão pode encontrar ao tentar falar de temas que estão além de seus limites tais como: Deus, liberdade, imortalidade da alma. Temas que vão além das possibilidades do conhecimento humano, assim em seu célebre texto “Crítica da Razão Pura”, Kant busca demarcar os limites dentro dos quais é possível o conhecimento humano e, por conseguinte, a própria Filosofai enquanto forma de conhecimento.
Assim, Kant compreende a razão de forma diferenciada da tradição que lhe antecedeu e, até mesmo das correntes filosóficas predominantes em seu tempo, pois este estabelece seus limites para o conhecer, gerando na Modernidade um cuidado todo especial quanto à validade dos conhecimentos gerados e sua objetividade. Além de propiciar uma crítica a toda e qualquer tentativa de absolutização e dogmatização de conhecimentos proferidos tanto pela tradição quanto para intentos posteriores.

Sem tal crítica, a Razão fica relegada a um estado de natureza, imperando o conflito. Não assegurando suas afirmações a reivindicações a não ser pela força bruta. Mas a crítica pode, mediante suas regras fundamentais e autoridade inquestionável, propiciar o apaziguamento desses conflitos. A paz é garantida pela sentença da crítica de que tal conhecimento não violou os limites da razão.

A crítica se dá antes mesmo de se postular um conhecimento adquirido como confiável, exigindo-se que seja certificado das condições do saber possível, em princípio, naquele contexto. Somente com a ajuda de critérios fidedignos sobre a validade de nossos juízos podemos conferir se há sentido em estarmos seguros de nosso saber.

Temos, até o presente momento, duas importantes contribuições de Kant para a consolidação da Modernidade, a saber: a Matemática e a Física como modelos de conhecimento e a Crítica do Conhecimento sob a qual se verificam as condições do saber possível. Mas não poderíamos deixar de mencionar, ainda, outras duas grandes contribuições para tal feito, que são: o conceito de identidade como pressuposto formal e não substancial e o aparato cognitivo que é o órganon sob o qual se viabiliza no ser racional o conhecimento.

A compreensão do ‘eu penso’ kantiano passa a ter mérito de romper com o objetivismo reinante. Em lugar de aceitar o primado do objeto sobre o conhecimento, instaura a investigação das condições do conhecimento dos objetos como constituidoras dos objetos, ou seja, a relação entre o sujeito que conhece e o objeto que é conhecido é que pode, realmente, trazer conhecimento.

A consolidação da Modernidade, que pretendemos ver em Kant, é também chamada de sua ‘revolução copernicana’, ou seja, essa virada na ótica da Teoria do Conhecimento, de se estabelecerem as condições que nos permitem conhecer os objetos, e não os objetos determinando como o conhecimento se dá. Assim, a verdade passa a estar na relação entre o sujeito cognoscível (o ‘eu penso’) e o objeto que se dá a conhecer e não somente no objeto. Tal revolução se dá, pois o objetivismo se equivoca porque ignora justamente esse movimento reflexivo da consciência aceitando o objeto como um dado que se impõe à própria consciência. Assim, o ‘eu penso’ proposto por Kant tem que poder acompanhar todas as representações, pois do contrário, seria representado algo que não poderia de modo algum ser pensado, o que equivale a dizer que a representação seria impossível ou, pelo menos, não seria nada.

Ao considerarmos essa representação, temos de ter em mente que tais atos de consciência são sintéticos e, por isso, a experiência, e todo material cognoscível oferecido por ela, não estão pressupostos por essa estrutura formal. A reflexão, pois, é que consiste na possibilidade do sujeito em captar essas operações sintéticas e propiciar, mediante a autoconsciência, a síntese transcendental. Isso porque, em referência ao entendimento, o princípio supremo da mesma é: todo o múltiplo da intuição está submetido às condições de unidade sintética originária da apercepção.

A reviravolta que Kant propõe com esse conceito está no fato de que o sujeito pensante não é uma substância dada a priori, mas sim uma unidade do pensamento, portanto, formal. Tal problema remonta a Descartes, pois este propõe uma consciência substanciada, que serviria somente para a abertura da consciência ao conhecimento da objetividade dos objetos, tratando-se apenas de um método que reconhece, na substância pensante, extensa e infinita, a verdade que buscava. Assim, Kant não comete o equívoco cartesiano, pois, entende que o objeto só pode ser pensado enquanto tal através das operações sintéticas do sujeito, que de forma alguma pode ser considerado substância.

Em continuidade à reconstrução do pensamento kantiano, no que diz respeito à consolidação da Modernidade, temos de analisar a contribuição que ele dá quanto ao Aparato Cognitivo. É bem interessante notar que Kant não está preocupado em dar uma descrição precisa sobre o Aparato Cognitivo, tem em mente somente a intenção de apontar para a existência do mesmo. Mas, efetivamente, em que consiste esse Aparato Cognitivo? Ele é composto pela sensibilidade e as categorias do entendimento. A sensibilidade se expressa em duas formas: espaço e tempo.
Para Kant o espaço não é algo dado pela experiência e, muito menos, algo que surge pela percepção do sujeito ao se relacionar com os objetos externos, mas, ao contrário, o espaço é que auxilia ao sujeito a intuir os objetos externos a si mesmo e distribuídos espacialmente.

De forma análoga Kant argumenta que o tempo é uma intuição a priori. Pois, o sujeito não poderia perceber os acontecimentos de forma sucessiva no tempo se essa sensibilidade não lhe auxiliasse no manejo das informações apropriadas pela experiência.

Assim, teríamos no espaço e tempo duas condições sem as quais é impossível conhecer, mas o conhecimento universal e necessário não se esgota nelas. É preciso também o concurso dos elementos apriorísticos do entendimento.

Kant propõem juízos que ele mesmo classifica em quatro grupos distintos a saber: quantidade, qualidade, relação e modalidade. Cada um desses juízos possui as seguintes categorias correspondentes: quantidade: universais, particulares e singulares; qualidade: afirmativos, negativos e indefinidos; relação: categóricos, hipotéticos e disjuntivos; modalidade: problemáticos, assertórios e apodíticos.

Os argumentos de Kant em favor da legitimidade das categorias são os de que as diversas representações formadoras do conhecimento necessitem ser sintetizadas, pois de outra forma não se poderia falar de propriamente conhecimento. Fica claro, também, que o tempo, enquanto elemento formal constitutivo da sensibilidade é importante, pois apresenta na consciência da diversidade uma unidade, um eu unificado. Isso é apontado por Kant como fundamental na constituição da unidade sintética da apercepção, ou seja, do eu penso já discutido anteriormente.

Mas isso não foi suficiente para Kant, principalmente por se colocar, após essa argumentação, o seguinte problema: como é possível que duas coisas heterogêneas, como são as categorias, por um lado, e os fenômenos, por outro, possam ligar-se entre si?

Na resposta a esse problema, Kant vai ressaltar ainda mais a importância do tempo como elemento catalisador entre as categorias e os fenômenos, pois, por um lado, é homogêneo ao sensível por ser a própria condição do sensível e, por outro lado, é universal e necessário, enquanto conceito.

Assim, temos a contribuição de Kant quanto ao Aparato Cognitivo, que não tem a pretensão de esgotar a questão, mas simplesmente apresentar que tal aparato é formal, ou seja, não substancial e que propicia todo o desenvolvimento posterior de sua obra “Crítica da Razão Pura” no intento de estabelecer os limites próprios da Razão na busca pelo conhecimento.

Chegamos assim à conclusão da contribuição de Kant à consolidação da Modernidade. Principalmente no que tange à Teoria do Conhecimento, para a qual o mesmo propõe, como vimos, uma revolução só comparada à copernicana.

Vicente Eduardo Ribeiro Marçal
Professor Assistente I

Departamento de Filosofia
Fundação Universidade Federal de Rondônia

Colaborador:Rodney Eloy
Fonte:Rondoniano

Faleceu o Edward Schillebeeckx, ‘um teólogo feliz’



“Sou um teólogo feliz”. Assim se definia Edward Schillebeeckx, que faleceu aos 95 anos de idade às vésperas do Natal em Nimega (Holanda). Foi um dos teólogos católicos mais prestigiosos e uma das personalidades mais influentes na mudança de paradigma do cristianismo durante a segunda metade do século passado, além de protagonista na renovação da teologia e da Igreja católica.

Nascido em Amberes, metrópole da Bélgica flamenca, no seio de uma família de 14 irmãos, ingressou na Ordem dos Pregadores aos 19 anos atraído pela abertura dos Dominicanos ao mundo, pela dedicação ao estudo, ao trabalho de pesquisa e à teologia centrada na pregação. Ele mesmo tornou realidade com acréscimo estas quatro características em sua vida religiosa e em sua atividade intelectual.

Estudou filosofia em Gante e Teologia em Lovaina com uma orientação tomista clássica, que ele renovaria durante os primeiros anos de docência. Depois da II Guerra Mundial, foi para a França para fazer o doutorado em Le Salchoir e estudar na Sorbonne. Em Salchoir se encontrou com os teólogos Marie-Dominique Cheny, punido então pelo Santo Ofício, e Yves Marie Congar, que sofreu vários desterros por conta de seu ecumenismo. Na Sorbonne teve aulas com os filósofos Le Senne, Lavelle, Wahl e Gilson.

Em 1947, iniciou sua carreira docente em Teologia Dogmática em Lovaina para renovar o pensamento tomista, preso na neoescolástica, e abri-lo às novas correntes filosóficas. Os escritos deste período se caracterizam pelo uso do método histórico frente ao dominante dogmatismo de manual, e pelo perspectivismo gnoseológico, que buscava uma síntese entre a fenomenologia e o tomismo. Em 1958, passou a ensinar Teologia Dogmática e História dos Dogmas na Universidade Católica de Nimega até a sua aposentadoria.

Teólogo de confiança do episcopado holandês, na época progressista, foi assessor no Concílio Vaticano II e um dos principais inspiradores de não poucos dos documentos conciliares relativos à Revelação, lida desde a perspectiva do método histórico-crítico, e da Igreja em diálogo com o mundo. É proverbial a este respeito sua afirmação: “Fora do mundo não há salvação”, que contrasta com o aforismo excludente “Fora da Igreja não há salvação”. No Concílio se encontrou com Joseph Ratzinger, de quem disse: “Já então havia nele algo de que não gostava. Nas reuniões não falava nunca”.

Para manter o espírito do Concílio, criou em 1965, junto com Congar, Rahner, Metz, Küng e outros teólogos progressistas, a Revista Internacional de Teologia Concilium, editada em oito idiomas, entre eles o espanhol, que hoje chega ao número 332.

Processado três vezes

Foi processado em três ocasiões pela Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício): em 1968, por sua atitude aberta para com a secularização; em 1979, por seu livro Jesus. A história de um vivente (São Paulo: Paulus, 2008), a melhor cristologia do século XX; em 1984, por O mistério eclesial, onde justificava a presidência da eucaristia por parte de um ministro extraordinário não ordenado. Saiu ileso dos três e inclusive bem, já que conseguiu desmontar as acusações de seus inquisidores com lucidez de argumentos, brilho de exposição e finura teológica.

A sensação que temos, as teólogas e os teólogos, após a sua morte é de orfandade, apenas superada pela leitura de suas obras, que seguirão iluminando o itinerário do cristianismo do século XXI pela senda da interpretação, do diálogo com as culturas de nosso tempo e do compromisso com a justiça.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Reflexão do Dia 31 de Maio de 2009 - DOMINGO DE PENTECOSTES Pe Paulo

Ao celebrarmos na semana passada a Ascenção de Jesus, tomamos consciência de que existem duas forças que agem em nós: uma, a força que nos puxa para baixo, para a terra; outra, a força que nos puxa para o alto, para o céu. Conhecemos a força que nos puxa para baixo: é o cansaço, a queda, o fracasso, a sensação de impotência, o desânimo, a falta de sentido, o vazio, o medo. Mas hoje, celebrando Pentecostes, o Senhor nos convida a nos abrir ao Espírito Santo, descrito como “força do alto”, a força que nos puxa para cima.
Embora não possamos ver o Espírito Santo, podemos sentir os efeitos da Sua presença em nós: ele dá repouso ao cansado, levanta o que caiu, aquece o que está frio, cura o que está ferido, encoraja o que está paralisado pelo medo, fortalece o que se sente fraco, ressuscita o que está morto, reúne o que está disperso, santifica o que está marcado pelo pecado, lava o que está sujo, endireita o que está torto...
O que é bonito observar nos Atos do Apóstolos, que nos narram o acontecimento de Pentecostes, é que a descida do Espírito Santo não aconteceu somente naquele dia. Ela se repetiu quando os discípulos, sentindo-se ameaçados, estavam em oração numa casa (cf. At 4,31); se repetiu sobre os samaritanos (cf. At 8,17), e sobre um pagão chamado Cornélio e sua família (cf. At 10,4). Então a descida do Espírito Santo pode se dar em cada um de nós hoje! Mas, como o Espírito Santo vem a nós?
Jesus soprou sobre os discípulos e disse: “Recebam o Espírito Santo!” (Jo 20,22). Isso significa que o Espírito Santo não pode ser adquirido ou conquistado; só pode ser recebido. Ele é o dom do Pai, concedido a nós por meio do Filho. O Pai concede o Espírito Santo aos que lhe obedecem (cf. At 5,32). O Pai concede o Espírito Santo a todos aqueles que Lhe pedem esse dom na oração (cf. Lc 11,13). O Pai concede o Espírito Santo àqueles que têm sede e se aproximam de seu Filho para Jesus, a única e verdadeira fonte de água viva, aquele por meio de quem nos vem o Espírito (cf. Jo 7,37-39).
Como foi mencionado acima, os mesmos discípulos que já haviam recebido o Espírito Santo em Pentecostes, tiveram esse mesmo Espírito renovado em seus corações tempos depois, durante uma oração, quando viviam uma situação forte de perseguição: “Tendo eles assim orado, tremeu o lugar onde se achavam reunidos. E todos ficaram repletos do Espírito Santo, continuando a anunciar com intrepidez a palavra de Deus” (At 4,31). Vamos ver como isso se aplica também a nós.
A primeira vez que recebemos o Espírito Santo foi no dia do nosso batismo, quando “nascemos do alto, pela água e pelo Espírito” (cf. Jo 3,3.5). Naquele dia “fomos batizados num único Espírito para formarmos um único corpo”, o corpo da família de Deus, e todos passamos a “beber de um único Espírito” (cf. 1Cor 12,13). A partir do batismo, o Espírito se tornou voz de Deus em nós, convidando-nos a nos deixar conduzir por Ele, pois “são filhos de Deus os que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus” (Rm 8,14).
A expressão “deixar-se conduzir” significa que o Espírito Santo não nos força, não nos violenta. Ele indica; Ele aponta; Ele inspira, mas somos nós que decidimos se vamos obedecer ou não à Sua voz. Dependendo como usamos a nossa liberdade, podemos correr o risco de extinguir o Espírito em nós (cf. 1Ts 5,19), de entristecê-lo com nossas palavras inconvenientes (cf. Ef 4,30), ou até mesmo de expulsá-lo de nós, já que Ele não habita numa pessoa falsa e que pratica a injustiça (cf. Sb 1,5). Justamente por isso, somos convidados em cada Pentecostes a pedir ao Pai a graça de reavivar o Seu Espírito em nós (cf. 2Tm 1,6-7).
Quando Deus envia o Espírito Santo, toda a face da terra é renovada (cf. Sl 104,30), tudo renasce. Assim, invocamos o Espírito Santo que desceu sobre os apóstolos como línguas de fogo (cf. At 2,3), para que, destruindo a torre de babel, símbolo da confusão, do desentendimento entre as nações (cf. Gn 11,7-9), comunique ao todos os povos a linguagem da reconciliação, do diálogo, da paz e da preservação da vida sobre a terra. Invocamos o Espírito Santo como sopro de Cristo ressuscitado para que penetre na vida de todas as pessoas cuja esperança está desfeita, cuja fé está enterrada, morta, para que voltem a viver (cf. Ez 37,9-14). Invocamos o Espírito Santo sobre todo ser humano, para que se deixa conduzir por esta força do alto que quer levá-lo até o Pai.

Vem, Espírito (Flavinho)
Vento impetuoso vem sopra aqui! Como línguas de fogo vem, repousar sobre mim! (bis)
Levanta-me, pois caído estou! Sacia minha sede! Levanta-me, pois cansado estou! Fortalece-me Senhor!
Ó vem Espírito Santo, preencher o meu coração! Ó vem Espírito Santo, inflamar em mim Tua unção!

Que o Pai reavive o dom do Espírito de seu Filho em você neste pentecostes!
Pe. Paulo

Simone, A Verdadeira Filósofa

Ao longo de seus 78 anos de vida, Simone de Beauvoir participou de tantos acontecimentos marcantes que, para narrá-los em livro, necessitou de quatro volumes. Nascida em Paris, em 1908, ela sempre foi incentivada a escrever pelos pais, que a estimulavam o desejo de conquistar o mundo através do tempo e do espaço.Em 1929, conheceu, na Sorbonne, Jean-Paul Sartre, que ficara impressionado com a beleza, a inteligência e a voz rouca de Simone.
Quando os dois prestaram o exame final de filosofia, Sartre tirou o primeiro lugar e Simone o segundo, mas os membros da banca estavam convencidos de que "a verdadeira filósofa era ela".Iniciaram um relacionamento no qual a monogamia e a mentira não tinham lugar. Sartre acreditava que acima de serem amantes, eram escritores, portanto, necessitados de conhecer a alma humana a fundo, somando experiências individuais que deveriam ser contadas, um ao outro, nos mínimos detalhes.
Em 1943, Simone lançou seu primeiro livro, o romance A Convidada, e, no ano seguinte, o ensaio Pirro e Cinéias, no qual sustenta que, na ausência de um Deus que garanta a moralidade, cabe ao indivíduo criar laços com seus pares por meio de ações éticas. Eram os vestígios da doutrina existencialista.Em 1949, publicou os dois volumes de O Segundo Sexo que, ao falar sobre o corpo da mulher e a sexualidade feminina, causou grande escândalo.Também depois da guerra, ao lado de Sartre e Merleau-Ponty, fundou Les Temps Modernes, uma das maiores arenas do debate político e social. Simone lançou no total 29 obras de diversos gêneros. Morreu em 1986, em Paris, e foi enterrada junto de Sartre.
Fonte: Estadão

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O problema dos milagres- visão do filósofo David Hume

Uma forma de apoiar a religião é por apelo a milagres. Mas Hume argumentou que no mínimo, os milagres não poderiam conferir muito apoio à religião. Há vários argumentos sugeridos pelo ensaio de Hume, todos eles à volta do seu conceito de milagre: nomeadamente a violação por Deus das leis da Natureza. Um argumento é o de que é impossível violar as leis da Natureza. Outro argumento afirma que o testemunho humano nunca poderia ser suficientemente fiável para contra-ordenar a evidência que temos das leis da Natureza. Outro argumento, menos irredutível, mais defensável, é que devido à forte evidência que temos das leis da natureza, qualquer pretensão de milagre está sobre pressão desde o início e precisa de provas fortes para derrotar as nossas expectativas iniciais. Este ponto tem sido aplicado sobretudo na questão da ressurreição de Jesus, onde Hume sem dúvida perguntaria "o que é que é mais provável ? que um homem se erga dos mortos ou que este testemunho esteja incorreto de uma forma ou de outra ?". Este argumento é a base do movimento cético e um assunto fundamental aos históricos da religião.
Acreditamos que Hume traz o tema para a filosofia, embora ele próprio não o tenha desenvolvido no campo genuinamente filosófico. O que ele contradiz é a doutrina teológica. Ele certamente recorreu a Tomás de Aquino de quem toma parte de sua definição; e ele nega a verdade da Eucaristia louvando-se em outro teólogo, John Tillotson, que foi depois Arcebispo de Canterbury. A muito citada definição de "milagre" dada por Hume no "Investigações" é que este significa "a transgressão de uma Lei da natureza por uma vontade particular da Divindade, ou pela interposição de algum agente invisível". Ocorre que uma característica do que é chamado milagre é precisamente o contrario, ou seja, representa um fato natural que Deus coloca numa ordem de possibilidades conforme Lhe é pedido. Por exemplo, um indivíduo em dificuldade pede socorro a Deus e imediatamente recebe uma dádiva espiritual ou material que para ele faz sentido como solução de seu problema – e que só para ele é uma resposta de Deus ao seu pedido, um milagre –, sem que nenhuma Lei da natureza tenha sido transgredida. Fatos sobrenaturais que transgridem as leis da natureza não são milagres, mas "testemunhos" que não dependem da fé porque são atos espontâneos de Deus, e este é o caso de Cristo caminhando sobre as águas, e essa distinção Hume não fez.. Uma terceira categoria de fato relacionável a Deus é a Eucaristia, que não é nem milagre nem testemunho. A questão é que se por algum caminho filosófico se chega a que Deus existe, então a discussão do milagre, do testemunho e da eucaristia entra no mesmo escaninho filosófico.
Hume associa o milagre à ignorância, o que é inócuo, porque Deus pode se reconhecer em qualquer forma em que seja pensado pelo homem, desde que como fonte do bem e da perfeição como a própria filosofia o coloca. O texto de Hume é dirigido mais ao que chamo "testemunho", embora ele exemplifique indistintamente milagres e testemunhos. No entanto, Hume, tendo negado a Deus, não precisava ter se dado ao trabalho de negar o milagre. ~
Autor: Roberson Marcomini (Filósofo e Teólogo)